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O Brasil depois do Oscar: quais são os próximos passos do cinema nacional?

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 24 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

Com participação de mercado quase dez vezes maior que em 2023, cinema nacional vive momento de renovação e esperança. 


Por: Carlos Eduardo Ortega

Última atualização: 24/04


Foto: Divulgação/Oscars
Foto: Divulgação/Oscars

Um mês após a vitória de Ainda Estou Aqui por Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2025, o público brasileiro encerrou o primeiro trimestre do ano consumindo mais filmes nacionais e com entusiasmo renovado. Dados divulgados pela revista Veja apontam que as produções brasileiras representaram quase 30% da bilheteria total no país, um contraste marcante com os modestos 3,3% registrados durante todo o ano de 2023. Este ressurgimento do cinema nacional, no entanto, não aconteceu por acaso.

 

A jornada de Ainda Estou Aqui e de Fernanda Torres pela temporada de premiações incendiou as redes sociais durante as primeiras semanas do ano, atraindo mais de 2,7 milhões de espectadores às salas de cinema. Na esteira desse movimento, Vitória, estrelado por Fernanda Montenegro, também conseguiu capitalizar a onda de interesse, estreando na liderança das bilheterias e rapidamente se tornando o maior sucesso comercial da atriz. Soma-se a esse quadro positivo o bom desempenho de lançamentos como Auto da Compadecida 2 e Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, e o cenário parece promissor. Mas surge a dúvida: o que podemos esperar dos próximos capítulos do cinema nacional, tanto nas bilheterias quanto no circuito internacional de premiações? 


O sonho do Oscar brasileiro, que por muitos anos parecia inalcançável, agora transformado em realidade, desperta no público a expectativa por novas premiações, e renova a esperança de diretores, roteiristas e produtores nacionais em terem seus trabalhos reconhecidos. Em movimento estratégico, a Globo Filmes, produtora de Vitória, já declarou interesse em tentar indicações de filme e atuação para o longa-metragem de Fernanda Montenegro. Paralelamente, outros lançamentos, como O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho, que faz estreia em Cannes já nas próximas semanas, e O Último Azul, de Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, emergem como potenciais novos embaixadores e alimentam o otimismo do mercado nacional. Mas, para garantir uma nomeação ao Oscar ou outras grandes premiações internacionais, não basta apenas fazer um bom filme


Em conversa com a diretora, produtora e roteirista Lô Politi, integrante da comissão que selecionou Ainda Estou Aqui como representante brasileiro na disputa do Oscar 2025, ficou claro que a escolha pelo filme de Walter Salles é um reconhecimento não apenas ao mérito técnico e artístico da obra, mas também (e talvez mais importante) à sua capacidade de penetração no mercado internacional. Em suas palavras: “nós não estamos escolhendo o melhor filme, estamos escolhendo o filme que tem mais chance de chegar lá.” 


E o caminho até “lá” é cheio de desafios. No caso de Ainda Estou Aqui, escolhido por unanimidade pela Comissão – um fato inédito – o filme reuniu elementos estratégicos importantes que vieram a consolidar sua vitória: contou com a Sony Pictures como distribuidora global, garantindo o alcance e recursos promocionais necessários; trouxe Fernanda Torres, atriz de prestígio internacional desde sua vitória como Melhor Atriz no Festival de Cannes em 1986; e foi dirigido por Walter Salles, cineasta que mantém sólidas conexões no circuito mundial e já havia sido nomeado ao Oscar de 1999 pelo longa Central do Brasil. Segundo Politi, mesmo os membros da Comissão com preferência por outros títulos reconheceram que Ainda Estou Aqui apresentava as melhores chances de vitória - e eles estavam certos. 


Para a diretora, conhecida por seu trabalho em Meu Nome é Gal e o documentário Alvorada, esta foi a primeira participação na Comissão de Seleção. Atualmente, a comissão é composta por 25 integrantes eleitos anualmente por membros da Academia Brasileira de Cinema – mas nem sempre foi assim. Até 2017, a responsabilidade de escolher o representante nacional cabia inteiramente ao Ministério da Cultura, um modelo que excluía profissionais do cinema e frequentemente resultava em decisões controversas, muitas vezes sob influência de interesses governamentais. 


Em um dos exemplos mais recentes, Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, foi deixado de fora da corrida do Oscar após manifestações políticas do elenco contra o governo do então presidente Michel Temer. Em 2020, também houve interferência do governo de Jair Bolsonaro na tentativa de barrar a possível nomeação de Democracia em Vertigem, documentário de Petra Costa, como representante nacional. O plano, entretanto, saiu pela culatra. A questão foi levada à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos (Ampas), que concedeu, pela primeira vez, total autonomia à Academia Brasileira de Cinema na escolha do representante. Assim, para Politi, integrar a Comissão de Seleção representa não apenas uma função técnica, mas também a conquista de um espaço que, por mais de 30 anos, foi negado aos seus pares.


Agora, o cinema brasileiro colhe os primeiros frutos dessa nova autonomia. Embora seja impossível prever com exatidão o desempenho de próximos lançamentos nacionais, o cenário é otimista. Além de haver uma retomada gradual aos níveis de faturamento pré-pandemia (apesar de ainda estarmos distantes dos números de 2018 e 2019), a vitória de Ainda Estou Aqui já tem efeito direto no financiamento de novas produções. Em março, poucos dias após a cerimônia do Oscar, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um aporte de R$ 32 milhões para uma das co-produtoras do longa de Walter Salles. Segundo Politi, também já é possível observar um interesse crescente de investidores privados dispostos a financiar filmes nacionais, abrindo novos caminhos para o crescimento do setor. 


Sobre futuras indicações ao Oscar, há um caminho a ser trilhado. Em 2024, doze filmes foram submetidos para avaliação da Comissão de Seleção. Politi presume que esse número deve aumentar em 2025, agora tendo a campanha de Ainda Estou Aqui como referência. O lançamento de Vitória também gerou discussões nas redes sociais sobre uma possível campanha do filme nas premiações de 2026. No entanto, mesmo com as intenções já declaradas pela Globo Filmes, Politi avalia que ainda é prematuro fazer previsões concretas sobre as chances do longa no cenário internacional. 


“Ainda temos um ano inteiro pela frente. Temos o novo filme do Kleber [Mendonça Filho], que vai fazer estreia em Cannes, temos a cinebiografia do Ney [Matogrosso], que estreia agora em maio. No fim das contas, a escolha do próximo representante dependerá da capacidade do filme de construir uma campanha competitiva para o prêmio. O que podemos fazer, por enquanto, é continuar assistindo”, Afirma Lô Politi.

Revisão: João Pedro Ribeiro e Izadora Braga


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