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O olhar sensível e poderoso de Agnès Varda

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

A ilustre cineasta fundamentou suas obras na escuta ativa e nas próprias vivências cotidianas


Por: Gabriel Monteiro e Laura Torres

Última atualização: 21/05/2026


Ciné-Tamaris/Reprodução
Ciné-Tamaris/Reprodução

A diretora belga Agnès Varda é para entusiastas da sétima arte uma das figuras mais interessantes da história do cinema. Mesmo após sua morte, em 2019, ela continua impactando diferentes gerações com uma filmografia que mistura memória, política, afeto e experimentação. Em suas obras, Varda retorna a fotografias, rostos e lembranças tanto pessoais quanto coletivas para compreender o que ainda permanece. Revisitar seu trabalho provoca um movimento semelhante, já que olhar para os seus filmes também significa acessar novamente arquivos históricos e experiências que continuam dialogando com o presente.


Nascida em maio de 1928, período entre guerras, o olhar de Agnès atravessou diversos períodos e acontecimentos emblemáticos da história da humanidade. Na França, país em que foi radicada, sua carreira artística se inicia no campo da fotografia, característica que viria a influenciar o cinema da diretora e permaneceria como parte essencial de sua produção até o fim da vida. Logo após a Segunda Guerra Mundial, a artista atravessa com seus registros diversas regiões da Península Ibérica e, em 1957, menos de uma década após a Revolução Maoísta, vai à China registrar seu povo e paisagens a convite do próprio governo chinês. É justamente nesse período, na década de 60, em que seu trabalho audiovisual passa a se mesclar profundamente com sua jornada histórica de documentação fotográfica. 


Ciné-Tamaris/Reprodução
Ciné-Tamaris/Reprodução

Quatro anos após a Revolução Cubana de Fidel Castro, Agnès Varda vai a Cuba e produz uma série contendo mais de 4000 fotografias, que retratam suas cidades, campos, cidadãos de todas as idades, líderes políticos, diversas atividades, trabalhos e funções sociais, além de sua cultura e costumes. Por meio da união dessas fotos, junto da trilha sonora e um depoimento próprio em forma de narração, Agnès produz o curta metragem Saudações, Cubanos! (1963). Em seu processo criativo, a diretora cria algo que, apesar da faceta informativa, ganha camadas de poética e expressividade, graças à montagem inventiva que evoca um ritmo poderoso. O conjunto de imagens se torna uma única dança, que, além de representar o povo cubano, também traz à tona as subjetividades observadas pela cineasta.


Ciné-Tamaris/Reprodução
Ciné-Tamaris/Reprodução

Já em 1968, durante o julgamento de um dos co-fundadores do partido dos Panteras Negras, Huey P. Newton, Agnès Varda vai à Califórnia e produz seu documentário Os Panteras Negras (1968), um dos mais íntimos e detalhados registros das atividades do grupo político no auge de sua movimentação. Aqui, a abordagem da cineasta é de cunho popular, ao mirar sua lente diretamente para a população negra que se encontra ali. Apesar de sua narração contextual, Agnès compõe o filme majoritariamente de entrevistas e prioriza dar voz a todos aqueles que escolheram ali se fazerem presentes. No entanto, a autora deposita sua sensibilidade na elaboração de belos enquadramentos cheios de simbolismo e intencionalidade, que ajudam a pintar uma imagem de resistência e comunidade, aspectos que definiram a jornada do grupo revolucionário.


Ciné-Tamaris/Reprodução
Ciné-Tamaris/Reprodução

Já o curta-documentário Ulysse (1982), lançado no começo dos anos 80, dá lugar a uma análise intimista sobre a relação entre memória e imagem, e a própria diretora se coloca como personagem central da pesquisa. Em sua essência, o filme tem como fio condutor uma fotografia feita por Varda em 1954, que consiste em uma composição simples com um homem nu, uma criança e uma cabra morta expostos em uma praia. Décadas depois, Agnès revisita as pessoas retratadas para entender o que restou daquela foto como recordação de cada uma delas. Dessa forma, o longa revela ao espectador como as lembranças são frágeis, maleáveis e esburacadas, o que põe em evidência a própria capacidade da imagem de preservar esse passado. 


No mês de seu nascimento, já no ano de 2026, uma das principais instituições de propagação cultural de Belo Horizonte, o Palácio das Artes, através do Cine Humberto Mauro, seu braço na divulgação cinematográfica, traz uma mostra audiovisual focada na filmografia de Agnès, marcada pela presença e pela escuta. Nesse contexto, a Equipe Curió conversou com Vitor Miranda, curador do projeto, que reforça o papel poderoso do trabalho da cineasta em meio a produção autoral e a realidade contemporânea. Ele ressalta: Varda é muito apegada às imagens e vai fazer esse mergulho nelas. Em Catadores e Eu (2000), ela até se denomina como uma ‘catadora de imagens’, então acho que o cinema documental dela está muito nesse gesto de ‘catar’ essas representações e valorizá-las.


Ciné-Tamaris/Reprodução
Ciné-Tamaris/Reprodução

Dentro dessa perspectiva, a artista batizou uma de suas obras como Documentira: An Emotion Picture (1981), brincando com a palavra emoção e a expressão de língua inglesa “motion picture” (traduzida como película cinematográfica). Além disso, usa de um termo que mistura as palavras “documentário” e “mentira”, o que reforça seu constante questionamento em torno da ideia de neutralidade e objetividade no cinema documental.


Para o curador, Varda tem esse hibridismo próprio dela que é muito interessante, porque não dá para dizer que uma coisa é 100% ficção ou 100% documentário. “Até na ficção mais artificial, a realidade está presente ali também, e, no documentário, por mais realista que ele possa ser, a partir do momento que tem uma câmera filmando, você vai ficcionalizar alguma coisa, completa.


Em um cenário contemporâneo marcado pela interação do público com um turbilhão de imagens que surgem na mesma velocidade em que desaparecem, as produções e registros de Agnès Varda insistem em olhar devagar, se fazer presente e entender o que a imagem do outro tem a dizer. Como declara Vitor, ter contato com as realidades que ela coloca nos filmes é um grande respiro: “Você está no celular, exposto a um audiovisual automatizado, que parece te dar muita liberdade e margem para elaborar em cima disso, mas não. Já a Varda consegue elaborar bastante coisa através dessas imagens que ela faz, dessa maneira que ela se coloca no mundo, que, em sua maioria, é bem simples e humilde”.


Fundação Clóvis Salgado/Divulgação
Fundação Clóvis Salgado/Divulgação

Os registros de Agnès Varda reforçam que nada é definitivo e toda imagem mantém seu próprio valor, ganhando novos sentidos e pode ser ressignificada com o passar do tempo. “De lá pra cá - Uma mostra da Varda” vai até o dia 7 de junho, com diversas exibições de curtas e longas metragem de forma totalmente gratuita. Para retirar ingressos e ver a programação completa, acesse o site ou as redes sociais do Palácio das Artes.

 
 
 

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