Quem preserva a memória das quebradas?
- Revista Curió
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Conheça Lincoln Péricles e a Cinemateca da Quebrada, um refúgio para o audiovisual periférico
Por Laura Mota e Vitor Pepino
Última atualização: 30/07/2026
“Quem faz o cinema brasileiro são as pessoas, os trabalhadores e as trabalhadoras”. Lincoln Péricles, cineasta paulista, escolheu marcar sua presença na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), relembrando o protagonismo dos reais atores da produção audiovisual nacional.
Ainda durante a Mostra, Lincoln citou uma de suas referências e colega de trabalho, Grace Passô: “As pessoas são canais de preservação, o nosso corpo guarda memórias”. E o que é o cinema senão o reflexo desse amontoado de lembranças e experiências, em forma de arte?
Pensar produção audiovisual é pensar sobre representação e representatividade de gente, de vivências, de comunidades, e é também sobre preservar culturas e identidades através do cinema.
Só que isso não vale para todo mundo. A indústria midiática isola as periferias e grupos étnicos marginalizados da produção audiovisual, que segue sucateada quando se trata de retratar, nas telas, a realidade de mais de 16,4 milhões de pessoas que vivem em aglomerados urbanos, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Se recordações, experiências, cinema, pessoas e arquivos estão entrelaçados e, em algum momento, se tornam uma coisa só, surgem, então, os questionamentos: será que o cinema é o mesmo para todos? Se qualquer memória pode ser arquivística e cinematográfica, porque, então, certas memórias valem mais do que as outras e “merecem” ser preservadas? Nas mãos de quem está a seletividade desses arquivos?
Foi a partir dessas indagações e da inexistência de espaços que se preocupem de verdade com o que acontece nas “quebradas”, que surgiu em Lincoln a vontade de fazer cinema. E esse “fazer” se destrincha em uma completude que abarca desde roteiros, direção e produção à criação de espaços de preservação da cultura periférica em forma de arquivos audiovisuais.
Do Capão para Paris

Lincoln Péricles, mais conhecido como LK, nasceu e vive até hoje no Capão Redondo, periferia da Zona Sul de São Paulo. Filho de um funcionário público mineiro e uma mulher indígena paranaense, LK é diretor, roteirista, montador e educador popular, somando mais de 15 anos de carreira.
Para além da produção, Péricles se volta ainda para um papel fundamental na comunidade do “cinema de borda” - termo cunhado pela pesquisadora Bernadette Lyra que envolve filmes independentes, de baixo orçamento: o de fundar e manter espaços que sirvam como apoio para cineastas periféricos. Com esse objetivo, Lincoln fundou a produtora Astúcia Filmes, mais uma plataforma utilizada por LK para dar visibilidade a narrativas periféricas através de curtas e longas premiados, e a Cinemateca da Quebrada, projeto focado em catalogar um contra-arquivo da história popular.
Atualmente suas obras já conquistaram o cenário internacional, estando presente em festivais como Cannes, Doclisboa, FICValdivia, NewFilmmakers Los Angeles e FID Marseille. Mas nem sempre sua história foi assim, o reconhecimento de hoje é fruto de uma luta de anos pela preservação da memória e de produções feitas na quebrada.
O nascimento da Cinemateca da Quebrada
A ideia deste projeto surgiu em meados de 2014, quando LK foi à Cinemateca Brasileira na tentativa de entregar seus filmes em DVD para preservação. Mas o que ele encontrou foi burocracia e dificuldade para integrar suas produções ao acervo.
A partir disso, começou a distribuir seus curtas-metragens em bancas de DVD pirata na quebrada do Capão Redondo. LK percebeu que o próprio ato de distribuição física de filmes também precisava ser preservado, nascendo então a Cinemateca da Quebrada, projeto lançado por quatro coletivos de audiovisual das periferias da zona sul de São Paulo (609, Quitus, Ramo e Astúcia Filmes), com o objetivo de preservar, valorizar e difundir o cinema de periferia.
Quem tem direito à memória?
O objetivo do projeto é ir além de produções audiovisuais consideradas como filmes e entregar à comunidade uma biblioteca de cinema da periferia para a periferia.
Durante a 21ª CineOP, LK ministrou a masterclass “Por uma Cinemateca da Quebrada”, em que reforçou a liberdade com que as pessoas podem entregar seus vídeos e fotografias: “Vídeos de casamentos, fotos de família, filmagens de aniversários, qualquer coisa se a pessoa falar que é filme, nós vamos considerar e vai fazer parte do acervo”, afirma o diretor paulista.

O trabalho de LK é símbolo de resistência à deterioração da memória e a tentativa de apagamento de certos grupos. Sem investimentos e incentivo, as populações de quebrada veem suas histórias serem contadas por pessoas que não fazem parte daquela realidade e generalizam apenas um recorte. Por isso a presença de Lincoln se faz tão forte, ocupar o lugar de trás das câmeras e incentivar pessoas a fazer o mesmo é dar voz a quem nunca teve chance de contar a sua própria vivência.
Enquanto estava no festival francês Regards Satellites, onde exibiu 15 filmes, Lincoln deu uma entrevista para a revista Que Tal Paris, em que disserta sobre essa necessidade de registrar a sua quebrada: “Sempre registrei minha vida no bairro, mas não como um blog sobre meu dia a dia, porque não era sobre mim, mas sobre colocar em imagens os lugares onde meus vizinhos e eu morávamos. Nunca tive a sensação de que esses lugares estavam bem representados no cinema brasileiro, que é feito principalmente por pessoas ricas ou de classe média. Este cinema mostra bairros como o meu apenas através do prisma da violência e dos motins. Queria mostrar a vida normal que acontece ali na maior parte do tempo”, afirma o cineasta.
Essa “vida normal” que tanto atrai o olhar de Lincoln é o cotidiano de pessoas em todo o país. Como ele mesmo disse em sua masterclass durante a 21ª CineOP: “O que preenche a memória é o nosso presente”. Por isso, essa preocupação e mobilização em incentivar a produção audiovisual marginal, para garantir que o presente seja registrado e que a história e a memória das comunidades periféricas tenham para onde olhar no futuro, evitando seu apagamento histórico pelo sistema que isola ao invés de representar.