Superman: um Punk Rock verdadeiro
- João Pedro Ribeiro
- 10 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Depois de momentos turbulentos vividos na telona, surge no céu um triunfo para o Homem de Aço que deixa molenga o coração de todos
Por: Filipe Delmondez
Última atualização: 10/07/2025

Há um certo tempo, vem sendo comentada uma certa “fadiga” de filmes de super-heróis. Essas críticas partem, inclusive, dos próprios fãs do gênero, cansados do estilo formulaico da Marvel, que estaria colocando todos os filmes na mesma caixinha. Por sua vez, os entusiastas da DC (Detective Comics) tinham que lidar com um universo polêmico sob a direção do Zack Snyder; ou de obras que eram apenas ruins mesmo (Batman VS Superman ainda aterroriza o sonho de muitos até hoje). Havia uma febre por Super-heróis, mas a história se tornou outra. Gostar desse tipo de filme de super se tornou um símbolo de breguice.
Entretanto, se tem algo que aprendemos com essas sagas, é que sempre há uma arma secreta guardada para o final. A DC tinha a sua: James Gunn, responsável por alguns dos melhores materiais audiovisuais do gênero dos últimos tempos, como a trilogia dos Guardiões da Galáxia, – o bom – O Esquadrão Suicida (2021) e a série Pacificador. O CEO da DC Studios percebeu essa fadiga e chegou a comentar sobre em uma entrevista para a revista GQ: “Acho que existe, sim, um certo cansaço com os filmes de super-heróis. Mas acho que não tem a ver com os super-heróis em si. Tem a ver com o tipo de histórias que são contadas e, se você perde o foco no que importa, que são os personagens, aí tudo se perde.” Com essa mentalidade de ouro, foi confiada a ele a responsabilidade de adaptar o personagem que é o símbolo, na cultura pop, de poder, esperança e bondade: o Super-Homem. E assim como O Mágico de Oz (1939) não foi o primeiro filme colorido e o IPhone não foi o primeiro smartphone, Superman não foi o primeiro super-herói… mas poderia muito bem ter sido.
Superman (2025) tem orgulho dessa figura como símbolo heróico, polindo o protagonista com bondade, sem ignorar os defeitos e inseguranças que o tornam humano. David Corenswet incorpora o personagem com uma inocência linda, quase como uma criança brincaria de ser herói, mas sem perder o profissionalismo que não abre mão dos jargões bobos com convicção, perde o controle sem parecer mal e sorri com uma beleza sutil que transfere a alegria da tela para o público. Ele se torna aquilo que o Super-Homem foi pensado para ser – aquele que age em nome do que é "certo". Uma cena de luta contra um lagarto gigante (a qual, para mim, é uma das melhores já feitas) representa muito bem isso. Nela, vemos o foco do Superman na luta sendo salvar vidas, colocando-se em perigo por um cachorro, virando um escudo humano e salvando até um esquilo. E a bondade é estendida até ao próprio monstro, o qual herói deseja proteger. E eu, como fã do Homem de Aço, não segurei meu choro em ver esse personagem tão bem feito.

A partir da luta em questão e do filme como um todo, ele também recebe ajuda da Justice Gang, um trio de heróis menos comerciais da DC formados pela Hawkgirl (Isabela Merced), Mr. Terrific (Edi Gathegi) e Guy Gardner (Nathan Fillion) com o manto de Lanterna Verde. Todos eles são muito bem caracterizados, com cada um tendo seu momento de brilhar. Guy Gardner é simplesmente aquele otário que não dá para odiar; Hawkgirl, infelizmente, é a mais apagada do grupo no longa e age como mediadora dos membros; já Mr. Terrific é uma estrela, tendo mais tempo de tela que os outros e sendo muito bem utilizado no tempo que tem como um gênio que não cai no arquétipo de sábio desprovido de emoção.
Enquanto isso, a seleção de personagens ligados ao Clark Kent (persona humana) são os membros do Daily Planet, em que se destacam Lois Lane (Rachel Brosnahan) e Jimmy Olsen (Skyler Gisondo). Nesse filme, Lois foge do arquétipo de dama em perigo para agir como par romântico ativo – ela faz o que precisa, sem esperar ser salva ou ser vista caindo de um prédio. Por sua vez, Jimmy é o trapalhão e mulherengo por acidente, com uma cômica linguagem física para acompanhar a quantidade absurda de parceiras que ele atrai. Há mais jornalistas introduzidos, os quais ficaram mais perdidos no roteiro final, ficando visível o corte de cenas com a equipe inteira.
Dentro dessa gama de personagens, há os antagonistas, com clara evidência para Lex Luthor (Nicholas Hoult), o qual entrega uma das melhores interpretações do personagem em um show de maldade, inveja declarada e tirania. Esse Luthor não poupa ninguém para chegar em seus objetivos. Ele é Mau com “M” maiusculo. É um show ver como ele age no filme. Ao seu lado, estão Eve Teschmacher (Sara Sampaio), a namorada tonta, modernizada e super divertida de ver em tela, Ultraman, uma figura misteriosa e silenciosa, e a Engenheira (María de Faria), uma mulher que trocou seu sangue por nanites e entrega visualmente poderes muito interessantes, mas é mal utilizada ao não ter falas pertinentes e agir estritamente como lacaia. Já o Metamorfo (Anthony Carrigan) se torna um prazer de se olhar, o qual tem o poder interessantíssimo de se transformar em qualquer elemento químico.
É com essa seleção de personagens interessantes – apesar de não utilizar alguns ao seu máximo –, que se cria o início nas grandes telas de um universo muito colorido e com designs muito bem feitos. Cada um desses personagens deixa os fãs com vontade de “quero mais”, de querer ver o que será feito com cada um deles, as histórias que serão contadas e os caminhos que serão seguidos. Eles são tão cheios de charme que, realmente, fazem valer as inspirações dos quadrinhos. Essa obra de Gunn bebe, obviamente, das HQs, mas também de uma paixão por elas. O filme não se envergonha dos quadrinhos, tanto que um dos seus maiores elementos é a presença do Krypto, o cachorro de Superman, um elemento da era de prata dos quadrinhos, mas evitado por muitos pela “tosquice”. Entretanto, nessa obra, ele é uma estrela, extremamente divertido e que não foi adaptado com intuito de ser a criatura fofa comercial do filme, mas um grito de orgulho por todas as coisas bregas dos quadrinhos.

Apesar do realismo não ser a direção da narrativa, nada aqui se torna ignorante. Exemplo disso é o conflito entre nações fictícias – uma super militarizada com apoio de armas dos EUA e a outra, sem poder armamentista, que tem sua população lutando nas ruas. Essa guerra pode fazer um forte paralelo com conflitos atuais, não demandando tanta atenção ou esperteza para fazer as ligações. Assim, como as repercussões do confronto para o próprio Superman são muito bem feitas, gera-se uma cena muito perspicaz de entrevista entre Lois e o herói. Mesmo sendo parceira romântica, ela coloca seu profissionalismo a frente e toca o diálogo de forma tão afiada e inteligente que me despertou o desejo de dar os parabéns ao roteirista – o qual, por sinal, é o próprio James Gunn – pessoalmente.
O mundo precisa de filmes como esse, porque, como sociedade, precisamos de exemplos a serem seguidos, mesmo que inalcançáveis. Em outras palavras, nós precisamos de Superman. Precisamos de gentileza, precisamos querer ajudar os outros, precisamos lutar pelo certo, mesmo com vários dizendo “não”. Nem sempre acertamos, mas precisamos das boas intenções. Como pessoas, nós crescemos e muitas vezes perdemos aquela magia de querer lutar pelo bem comum com as responsabilidades da maturidade, mas nunca é tarde demais para se lembrar da sensação boa de proporcionar o melhor ao próximo. Por isso, cabeça para cima – tentar ser uma boa pessoa é a coisa mais verdadeiramente punk rock que existe.
Esse filme, pessoalmente para mim, é uma nota cinco. Foi, de longe, um dos melhores momentos que já tive no cinema. No entanto, sendo objetivo com os pequenos percalços com alguns personagens introduzidos, finalizo com 4,5. Seguirei torcendo para os próximos projetos de heróis serem tão bons quanto esses,

Nota: 4,5/5



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