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Vida longa ao Studio Ghibli: quatro décadas de magia e importantes reflexões

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    Revista Curió
  • 12 de jun. de 2025
  • 11 min de leitura

Atualizado: 27 de jun. de 2025

Celebrando 40 anos em junho deste ano, o estúdio japonês impacta gerações com fantásticas (mas realistas) animações, destacando temas como meio ambiente, guerras e forte protagonismo feminino


Por: Ana Clara Moreira e João Pedro Ribeiro

Última atualização: 12/06/2025

Studio Ghibli Brasil/Divulgação
Studio Ghibli Brasil/Divulgação

Totoro, Chihiro, Howl, Kiki… Completando 40 anos em junho de 2025, o Studio Ghibli é um estúdio de animação japonês responsável pela criação de personagens tão marcantes para o cinema que, mesmo em um universo repleto de lugares comuns, ressoam no imaginário popular de acordo com as próprias maneiras e essências.


Nas quatro décadas de existência, o estúdio conta com 24 produções em longa-metragem; número que, embora seja pequeno diante de outras grandes produtoras, representa um dos acervos mais ricos da história da sétima arte. Os mundos fantasiosos, repletos de elementos do folclore japonês, retratam a realidade como poucas obras já fizeram, assim como as abordagens mais realistas demonstram o quanto sonhar é preciso para seguir vivendo.


É diante da celebração das quatro décadas do Studio Ghibli que a Revista Curió se lança no desafio de contar um pouco dessa magicamente realista história, mostrando que é quase impossível realizar esse exercício sem se perder na imensidão da beleza e, consequentemente, na imensidão de palavras necessárias para (tentar) descrevê-la. Para isso, foram selecionadas algumas temáticas principais que podem ser encontradas em diversas produções do estúdio. Pegue sua vassoura, hidroavião ou ônibus-gato e embarque nessa jornada!


Meio ambiente


Depois de longas décadas de uma exploração inconsequente e predatória da natureza, o ser humano demorou a voltar as atenções à questão ambiental. Foram necessários vários sinais para isso: escassez de recursos naturais, aumento da poluição industrial, crescimento populacional, alterações climáticas… Diante da realidade cinza e do futuro estéril que se apresentava, foi apenas na segunda metade do século XX que a temática passou a ser um ponto central nas agendas internacionais, simbolizada pela realização da primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, no ano de 1972.


É em um cenário internacional como esse que o Studio Ghibli é criado, em junho de 1985, pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata e pelos produtores Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma. No entanto, mesmo antes desse marco histórico para o cinema, o grupo já havia trabalhado num projeto que abordava as preocupações com o meio ambiente. Lançado em 1984, Nausicaä do Vale do Vento fala sobre uma jovem destemida e carismática que vive um milênio depois da destruição dos ecossistemas terrestres, tempo em que os seres humanos sobreviventes precisam lidar com florestas, ar e oceanos tóxicos, assim como com uma fauna composta por insetos gigantes e predadores mutantes.


Enquanto nos fóruns internacionais a discussão se voltava para as formas menos prejudiciais ao mercado de transformar as matrizes energéticas e cadeias produtivas, o folclore japonês era utilizado como base para narrativas do estúdio que propunham retratar como a relação entre humano e natureza podia ser ressignificada das mais diversas formas. Em vez de pensar os dois separadamente, como o Ocidente sempre fez, os cineastas demonstraram como aquele fazia parte desta – compartilhando, portanto, as mesmas dores e raízes.


Nausicaä do Vale do Vento | Studio Ghibli Brasil/Divulgação
Nausicaä do Vale do Vento | Studio Ghibli Brasil/Divulgação

Meu Amigo Totoro (1988), terceiro longa do estúdio, é uma carta de amor a essa relação. A trama, que relata a história de duas irmãs que se mudam, junto ao pai, para uma casa no Japão rural pós-Guerra para ficar perto do hospital onde a mãe está internada, aparenta não ter a temática ambiental como abordagem principal em um olhar mais desatento. Todavia, a jornada de Satsuki e Mei se volta para a potencialidade da comunhão entre a vida humana e aquilo que a cerca através de um dos pilares da cultura japonesa: os espíritos (kami).No xintoísmo, religião adotada pela maior parte da população no Japão, os kami são forças sagradas que podem ser divindades, espíritos de fenômenos naturais, ancestrais ou mesmo objetos inanimados. Nas obras Ghibli, eles assumem variadas formas, mas em Meu amigo Totoro estão atrelados à natureza, assumindo contornos de animais com poderes mágicos.


A obra abraça a fantasia para construir uma ponte concreta entre os mundos habitados por esses espíritos e os humanos, demonstrando como ambos não apenas dependem um do outro, mas podem ampliar as próprias potencialidades quando se relacionam com respeito e harmonia. Em mais uma ruptura entre Ocidente e Oriente, a presença dos espíritos não implica medo ou pavor, mas é vista como um reconhecimento daqueles que conseguem enxergar a natureza em tamanho pé de igualdade, tornando-se dignos  de ver e interagir com aquelas formas. Nesse sentido, um aspecto central do longa é a capacidade restrita às crianças de enxergar esses seres, vistas como versões ainda “dignas” e “inocentes” do humano.


Inclusive, essa mensagem superou as telas do cinema e teve impactos na vida real: movida pela região que inspirou a vila onde se passa o longa, a Fundação Totoro no Furusato foi criada em 1990 com o objetivo de preservar o habitat natural das Colinas Sayama e os seus arredores, na província japonesa de Saitama. A partir dessa organização foram criadas as Florestas Totoro (Totoro no Mori), com o objetivo de proteger as florestas da região, que  anteriormente estavam em risco de destruição devido à urbanização, ao desmatamento e ao despejo ilegal de resíduos.


Na direção oposta, Hayao Miyazaki também demonstra em sua filmografia que a dualidade humano-natureza não é regida apenas pela harmonia; muito pelo contrário. Princesa Mononoke (1997) vai pelo caminho inverso, retornando a um mundo rudimentar (aproximadamente no século XVI) para questionar justamente onde e quando essas esferas tão codependentes se desconectaram. A história acompanha o envolvimento do jovem príncipe Emishi Ashitaka na luta entre deuses de uma floresta e humanos que consomem seus recursos.


Como destacam Ana Silvia Fonseca e Pedro Marcelino, em reportagem do Diplomatique Brasil, “durante a jornada, [Ashitaka] encontra a princesa Mononoke, uma garota criada por grandes lobos na Floresta Sagrada. Praticamente no mesmo ponto da narrativa ele também conhece Lady Eboshi e o assentamento humano sediado em sua mineradora, que tentam destruir a floresta por considerarem que os seres que lá vivem impossibilitam o desenvolvimento da humanidade e os lucros provenientes da exploração da natureza. A partir disso, Ashitaka, ao mesmo tempo em que busca sua própria cura, torna-se um mediador entre a civilização humana, representada por Lady Eboshi, e os seres da Floresta Sagrada, representados sobretudo pela selvagem princesa Mononoke”.


Assim como em Meu Amigo Totoro, a trama é conduzida pela mediação entre seres físicos e espirituais que representam os dois mundos; no entanto, o foco está em como eles podem ser destrutivos um para o outro. Em uma jornada em que todos prezam por valorizar apenas a si mesmos (algo semelhante aos fóruns internacionais que foram mencionados anteriormente), a mensagem é que os interesses de cada um estão interligados, visto que compartilham da mesma origem e do mesmo destino. Portanto, para evitar um final trágico, garras e armas devem ser abaixadas para que o que ainda resta seja preservado.


PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins | Studio Ghibli Brasil/Divulgação
PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins | Studio Ghibli Brasil/Divulgação

Já em PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins (1994), a pauta é a devastação da natureza em nome da “civilização”. A história, uma das mais divertidas do estúdio, se passa entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1990, período de plena expansão imobiliária nos arredores de uma Tóquio ainda provinciana. O roteiro se desenvolve a partir da destruição e divisão da floresta habitada por várias famílias de guaxinins, que, mesmo com grandes diferenças entre si, se unem na tentativa de expulsar os invasores. Liderados pelo mal-humorado e irritadiço Gonta, o guru Seizaemon, a sábia Oroku e o jovem Shoukichi, os mamíferos que simbolizam transformação e adaptabilidade usam lendas e conhecimentos tradicionais do povo japonês em grandes batalhas para preservar seu habitat natural.


Por meio da adoção de diferentes técnicas de desenho, os guaxinins são retratados de formas distintas – ora com traços humanos, ora de maneira mais realista e ainda, em alguns momentos, como personagens de mangá –, mas sempre com a qualidade técnica típica e super precisa das produções do estúdio japonês, tanto em relação à estética quanto à construção de uma narrativa comovente e reflexiva. Ao contrário de outras obras do Studio Ghibli, esta não deixa muita margem para interpretações e diz o que tem a dizer: o humano destrói e a natureza sofre as consequências.


Aviação e a II Guerra Mundial


Poucos dias após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, o reconhecimento, pelos Aliados, da rendição do Japão marcaria o fim da Segunda Guerra Mundial. Naquele país devastado pelo conflito viviam três dos quatro fundadores do Studio Ghibli, que anos mais tarde destacariam, no cinema, a dor que não apenas foi contada, mas sentida por eles na própria pele.


Aqui é importante evidenciar as criações de Hayao Miyazaki, que frequentemente abordam não só as mazelas da guerra em si, mas também o que ele considera o uso desvirtuado de grandes feitos da humanidade – especificamente a invenção dos aviões – para fins bélicos. Filho de Katsuji Miyazaki, diretor da Miyazaki Airplane, que fabricava os lemes dos caças de combate japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, o cineasta projeta parte da própria história em Vidas ao Vento (2013).


A animação é concebida como a biografia de Jiro Horikoshi, um dos responsáveis pela criação das aeronaves de combate utilizadas pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, mas não deixa de lado o tom de fantasia tão característico das obras de Miyazaki. Com indicações ao Prêmio da Academia do Japão para animação do ano, Vidas ao Vento celebra a beleza e a engenhosidade de mentes capazes de grandes realizações, embora muitas delas sejam corrompidas e transformadas em “sonhos amaldiçoados” – e há quem diga que esse paralelo tenha sido pensado não só para os aviões, mas também para o próprio cinema.


Vidas ao Vento | Studio Ghibli Brasil/Divulgação
Vidas ao Vento | Studio Ghibli Brasil/Divulgação

A aviação e as catastróficas consequências da guerra também são temas centrais em Porco Rosso: O Último Herói Romântico (1992). Em uma Itália marcada pela recessão econômica e pela ascensão do fascismo, um ex-piloto emérito da Força Aérea Italiana transformado em um porco se torna um caçador de recompensas. Essa combinação extremamente peculiar  de palavras cria um diálogo entre as histórias japonesa e italiana que, mesmo com tantas diferenças entre si, tiveram destinos semelhantes – e trágicos.


Em uma trama aparentemente cômica e descontraída, Miyazaki deixa implícitos medos e anseios, de uma sociedade que, mesmo pequena diante de um sistema brutal, luta para resguardar o mínimo de humanidade que ainda resta – afinal, “melhor um porco do que um fascista”. E, é claro, como não pode deixar de ser, a materialização dessas disputas políticas e sociais por meio de duelos de hidroaviões deslumbrantes não é nada menos do que épica.


Por fim, mas definitivamente não menos importante, O Túmulo dos Vagalumes (1988), é, ao mesmo tempo, o mais sutil e devastador dos títulos sobre o conflito iniciado em 1939. O filme narra a trajetória dos irmãos Seita e Setsuko, que, após a morte da mãe em um bombardeio e a convocação do pai para o campo de batalha, vão morar com alguns parentes. Rejeitados, eles deixam a cidade e encontram abrigo em uma floresta, onde em meio à luta contra a fome e as doenças, conseguem encontrar algum alento nas luzes dos vagalumes.


Sem quase nunca mostrar cenas escancaradas da guerra, o longa comove ao contrastar a complexidade da situação de duas crianças abandonadas com a simplicidade dos momentos que as fazem felizes; ao demonstrar a resiliência diante do luto; e ao contrapor, em uma metáfora genial por meio dos vagalumes, a beleza e a brevidade da vida.


Personagens femininas


Os títulos do Studio Ghibli recorrentemente retratam meninas e mulheres de maneira pouco usual – especialmente no início, quando a possibilidade de papéis femininos diversos ainda não era tão debatida –, como protagonistas dos filmes e das próprias histórias. Desde Nausicaä do Vale do Vento, as personagens ocupam espaços que tradicionalmente não são atribuídos a elas: figuras independentes, capazes de se defender, de defender as causas que lhes são caras, assim como os próprios desejos.


Embora à época as discussões sobre preservação do meio ambiente, efeito estufa e aquecimento global fossem embrionárias, a princesa do Vale do Vento age talvez como agiria hoje a jovem ativista Greta Thunberg, em busca do equilíbrio entre a vida humana e os recursos naturais. As semelhanças com a atualidade também se manifestam no fato de que os povos da Terra viviam em guerra, separados por um “Mar de Corrupção”.


Enquanto Greta se vale das redes sociais e da visibilidade que tem na imprensa, Nausicaä acessava recursos ancestrais, como as habilidades de luta ensinadas pelo pai, que lhe permitiam derrotar vários inimigos com poucos golpes, apesar de se manifestar fortemente contra a violência – e aqui são também evocadas posturas como as da paquistanesa Malala Yousafzai, pessoa mais jovem a receber o Nobel da Paz, em 2014, quando tinha 17 anos. A personagem de Miyazaki, portanto, é um tipo de premonição, já que dialoga com grandes meninas e mulheres da atualidade, mesmo tendo sido criada anos antes delas sequer existirem.


Por outro viés, O Serviço de Entregas da Kiki (1989) e O Reino dos Gatos (2002) mostram a jornada de crescimento e autoconhecimento das protagonistas. No primeiro título, ao completar 13 anos, a bruxinha Kiki deixa a casa dos pais em busca de um ofício. Nessa jornada, as dificuldades do processo de amadurecimento na passagem para a adulta são engenhosamente representadas pelos dilemas vividos por Kiki em tarefas cotidianas, que começam a enfraquecer seus poderes mágicos – uma mensagem indireta, mas extremamente direta sobre as desilusões da vida. Lidando com temas como solidão, responsabilidades e o reconhecimento de si mesma no mundo, a bruxinha passa por uma série de vivências que a ajudam a encontrar respostas para suas indagações.


O Serviço de Entregas da Kiki opera sob simbolismos muito potentes. Por exemplo, a perda da capacidade de se comunicar com Jiji, seu inseparável gatinho preto, representa a percepção da perda da própria essência e do distanciamento da magia. Mas é justamente nesses desafios que, mesmo sem perceber, Kiki acumula aprendizados, principalmente com o apoio das pessoas ao seu redor. Nesse sentido, a floresta e o mar também surgem como importantes espaços de respiro e de contemplação da imensidão do mundo, retratando mais uma vez a potencialidade inerente à harmonia da natureza e o ser humano.


O Serviço de Entregas da Kiki | Facebook Studio Ghibli Brasil/Divulgação
O Serviço de Entregas da Kiki | Facebook Studio Ghibli Brasil/Divulgação

Já em O Reino dos Gatos, a estudante Haru salva um gatinho que seria atropelado, e como forma de retribuição pela gentileza é convocada a conhecer um universo paralelo, onde precisa encontrar e se conectar com a própria essência para não virar felina. Diante das facilidades que estariam associadas à nova vida, os amigos a recordam constantemente sobre a importância da autenticidade e da lealdade, ainda que só ela possa se salvar.


A saga de Haru diz respeito não só às diversas pressões às quais as meninas e mulheres são submetidas em qualquer tempo ou lugar: a narrativa propõe um caminho no qual não precisam lidar sozinhas com desafios e padrões que se apresentam, embora sejam as principais responsáveis por se reconstruir, especialmente quando sentem que não se encaixam no mundo onde vivem.


Outra importante personagem feminina do Studio Ghibli é Arrietty, de O Mundo dos Pequeninos (2010). Ela e os pais acreditam ser os últimos coletores, pequenos seres que vivem no assoalho das casas humanas, de onde tiram pequenos objetos e alimentos necessários à própria sobrevivência. Durante toda a jornada, Arrietty demonstra coragem e esperanças colossais, assim como um gigantesco desejo de viver, mesmo enfrentando desafios inversamente proporcionais ao tamanho dela.


Com muita sensibilidade e extremo cuidado aos detalhes, o longa mostra a força da união entre meninas e mulheres, e como elas são fundamentais para cuidar, encorajar, escutar e apoiar umas às outras, suas famílias e amigos, sem precisar renunciar aos próprios sonhos e desejos.


Vida longa!


Algo que o Studio Ghibli sempre ofereceu ao público ao longo desses 40 anos, independentemente da narrativa, é a possibilidade de sonhar e imaginar. Com personagens, temáticas e estética inesquecíveis, o estúdio prova, por diversas vezes, que a realidade só pode ser concebida através da fantasia – ainda que nem sempre isso signifique que as coisas sejam mais fáceis.


A palavra “Ghibli”, de origem árabe, remete a um vento quente que sopra através do Deserto do Saara em direção ao Mediterrâneo, carregando areia por todo o trajeto. Se a proposta de quatro décadas atrás era soprar um novo vento através da indústria de anime, hoje é possível dizer: essa é uma ventania que jamais irá esfriar.


1 comentário


fernanda55l
27 de jun. de 2025

💛💛

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