Disputar uma cidade
- Revista Curió
- 24 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Entre frestas e cercas, que forças têm cultivado – ou negligenciado – a paisagem cultural de BH?
Por: Laura Portugal
Última Atualização: 23/06

Em 1970, quando Drummond descreveu Belo Horizonte por sua “primavera monótona”, talvez não imaginasse que, mais de meio século depois, a dificuldade em sustentar uma vida cultural diversa ainda seria um tema recorrente. Hoje, enquanto a cidade é celebrada por sua boemia, o que qualquer olhar atento ao cotidiano percebe são bares tentando contornar legislações cada vez mais restritivas e uma frequência quase mensal de espaços culturais encerrando suas atividades. A sensação de esvaziamento não é nova, mas parece ter se aprofundado.
Nos últimos anos, as dificuldades do setor cultural têm se acumulado em ritmos diferentes, mas com sintomas cada vez mais latentes. Entre 2024 e 2025, cresceu com certa rapidez a lista de espaços que encerraram as atividades enfrentando obstáculos semelhantes, como A Gruta, o Aquilombar, o Spot Culture e a Casa Fúnebre. No teatro, o processo é mais lento, mas igualmente desanimador: segundo o SINPARC, mais de dez teatros particulares fecharam as portas na última década. Já entre as iniciativas públicas, o encerramento abrupto do BDMG Cultural, anunciado em 2024 pelo governo estadual, transferiu para Ouro Preto uma estrutura que, por mais de vinte anos, abrigou shows, exposições e projetos de formação no centro da cidade. A decisão foi tomada sem consulta pública e sem explicações oficiais, reforçando a sensação de que as rédeas da cultura seguem sendo puxadas à distância.
Mas que forças têm cultivado – ou negligenciado – o terreno cultural da cidade?
O custo político de fazer cultura
Leis de uso do solo, exigências para alvarás, regras sobre ruído e mobiliário urbano: entre os muitos desafios enfrentados pelo setor cultural em Belo Horizonte, a regulação do uso da cidade ocupa um lugar central e historicamente tensionado. A disputa por quem pode e como pode ocupar o espaço urbano deixa o fazer cultural à mercê de uma lógica que prioriza a burocracia e o controle em vez das dinâmicas que sustentam a vida cultural da cidade, principalmente em relação a espaços híbridos que combinam bar, galeria, ensaio ou apresentações. Projetos experimentais ou informais, que justamente respondem à demanda por mais diversidade de uso do espaço, caminham sem respaldo legal para a permanência.
O cenário ganha contornos ainda mais restritivos diante do atual momento político da cidade: desde o início da nova legislatura, em 2025, o discurso que tenta fazer de Belo Horizonte a “capital mais conservadora do país” tem contornado a atuação de parte considerável da Câmara Municipal de BH. A Frente Parlamentar Cristã, que, atualmente, é a maior da casa, tem avançado com dezenas de projetos que atravessam direitos civis, liberdades individuais e, de forma direta ou indireta, os modos de ocupação e uso da cidade.
No orçamento, o quadro não é diferente. Em 2023, a Secretaria de Cultura e Turismo teve acesso a apenas 0,4% do orçamento total da cidade, configurando menos da metade do 1% recomendado pela Unesco como investimento mínimo.
Assim, paralelamente, a vida noturna segue comprimida por regras que, mesmo sem se apresentarem como políticas culturais, impactam diretamente a cultura. Limitações sobre o uso de mesas nas calçadas – característica tradicional da boemia mineira –, restrições ao horário de funcionamento de bares e exigências pouco adaptadas à realidade dos pequenos espaços têm feito a cidade fechar mais cedo. O resultado não é só a antecipação da volta pra casa, mas a redução dos espaços possíveis de encontro, circulação e produção, especialmente para iniciativas que nascem fora dos circuitos institucionalizados.
O direito de chegar
Para além dos editais, leis de uso do solo ou orçamentos restritos, os obstáculos culturais em Belo Horizonte passam, literalmente, pelo trajeto até a cultura – que é com frequência concentrada no centro da cidade. Em uma capital marcada por desigualdades territoriais históricas e um sistema de transporte público que parece operar mais por inércia do que por planejamento, a mobilidade segue sendo uma das principais barreiras à construção de uma cidade que viabilize, de fato, a integração cultural. Sem um metrô que conecte a cidade e diante dos ônibus que circulam lotados e imprevisíveis, o simples deslocamento se transforma em um esforço logístico. Pagar R$ 5,75 para atravessar a cidade e assistir a um espetáculo, frequentar um show ou participar de um evento cultural é, muitas vezes, um privilégio.
É por isso que, em Belo Horizonte como em qualquer grande centro urbano, falar de cultura é também falar de políticas de mobilidade. E, hoje, é falar de Tarifa Zero. Ainda em tramitação na Câmara Municipal, o Projeto de Lei (PL) 60/2025 propõe a implementação da gratuidade no transporte público por ônibus na cidade. O debate em torno da medida, que já foi implementada em 31 municípios de Minas Gerais, recoloca em pauta o ponto que rodeia qualquer conversa sobre quem faz e quem consome cultura em BH: o que, afinal, é política cultural? E quantas outras poderiam, de fato, ampliar o acesso à arte e à vida coletiva?
Permanência nas frestas
Se há, hoje, um exemplo que sintetiza as disputas em torno da cultura em Belo Horizonte, é o Carnaval de rua. Nascido da ocupação popular, organização autônoma dos blocos e valorização do estado de festa, o Carnaval de BH se tornou, nos últimos anos, uma das expressões mais claras da capacidade de produção cultural coletiva. Mas, agora, enfrenta o risco de ser transformado em um megaevento: a proposta da prefeitura, liderada por Álvaro Damião, prevê shows internacionais diários, estrutura centralizada e uma lógica de espetáculo que ameaça desmontar justamente o que fez da festa uma referência: a autonomia e a ocupação livre do espaço público.
A tentativa de transformar o Carnaval em produto não é isolada, mas faz parte de um projeto longo de mercantilização das formas de produção cultural. Em uma cidade onde a cultura historicamente sobrevive nas frestas, muitas vezes apesar do poder público, defender essas formas de fazer é também defender o direito ao encontro, à criação e ao uso coletivo da cidade.
Se o esvaziamento é visível, a força de quem segue criando também é. E é nesse embate que a cultura de Belo Horizonte continua a existir.



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