PIVETZ SOUNDS
- Revista Curió
- 19 de set. de 2025
- 7 min de leitura
Como vivemos nossa filosofia de encruzilhadas na cena eletrônica em Belo Horizonte?
Por: Gustavo Marinho
Última Atualização: 19/09/25

Do que é feito um Pivete?
O Pivetz Sounds é um coletivo de música eletrônica que nasceu em Belo Horizonte como uma resposta à necessidade de ocupar uma lacuna na cena cultural. Formado por músicos, produtores, comunicadores e pesquisadores, compartilhamos a vivência da marginalidade, seja por identidades LGBTI+, questões raciais ou por pertencerem a culturas dissidentes. Nosso propósito como Pivetz Sounds é nos posicionarmos de forma contrária a uma hegemonia que tenta silenciar a diversidade na arte.
A história começa, cronologicamente, com o Festival Nufluxo em 2022. Na produção e idealização, o festival já contava com algumas das pessoas que viriam a ser membros do Pivetz Sounds, entre eles a DJ Trine, que ainda não havia estreado na discotecagem. No dia do evento, uma das atrações cancelou a participação e, de última hora foi necessário conseguir um artista substituto, sem nenhum ensaio, nasceu o Pivetz Sounds como projeto solo de Trine.Paralelo a isso, na UFMG, os estudantes enfrentavam um debate sobre a ocupação do espaço público para a juventude, especialmente para a juventude pobre com pouquíssimo acesso a lazer e cultura. Os eventos culturais independentes, feitos por estudantes no Campus Pampulha surgiram como uma resposta genuína a essa realidade. Mesmo sem autorização, eram, e ainda são, grandes organizações coletivas de produção e curadoria. Em uma dessas oportunidades, nossa geração teve a chance de liderar essa produção, e o impacto da festa e do encontro foi grandioso, destacando os diferentes contextos de todos ali presentes, coexistindo em suas diferenças.
O que poderia ser apenas uma solução de emergência no Festival Nufluxo na verdade se conectou diretamente com as discussões de uma comunidade de artistas, produtores, e estudantes travavam na cidade. O ativismo pela ocupação artística do espaço público e a busca por uma curadoria genuína e feita em rede foram a base para a ideia de se tornar um coletivo. Foi desse encontro de propósitos — a necessidade de criar um som próprio e a urgência de ter um lugar para realizar isso de forma democrática — que nasceu a ideia de consolidar o Pivetz Sounds como um projeto contínuo, capaz de ir além de um único evento e se tornar um movimento cultural e político.
A filosofia da encruzilhada e ativismo
Por mais clichê que pareça, a diversidade é a verdadeira potência do coletivo. Acreditamos, inclusive, que é ela que estrutura a necessidade de coletivizar algo, de buscar um outro posicionamento e um outro olhar. No processo de coletivizar ideias, o caminho se torna mais complexo. Foi ao tentar administrar as diferenças e discordâncias que entendemos o que de fato somos e qual é a nossa maneira de lidar com a diversidade. Deixar-se transformar, talvez, seja o que mais potencializa a Pivetz Sounds. Somos o resultado de uma série de encontros que aproximam pessoas por um reconhecimento genuíno do seu trabalho como produtor ou artista. O encontro dessas ideias, nascidas nas produções independentes e nas movimentações políticas pela ocupação urbana, é o que nos une e forma o Pivetz Sounds. É com base nessas experiências que construímos nossa filosofia de coexistência coletiva e de valorização das diferenças. Tudo se traduz em uma filosofia exuística de encruzilhada, uma referência direta ao autor Luiz Rufino. Nela, assumimos ser transpassados por diferentes caminhos, ideias e opiniões, sem que se crie uma hierarquia entre eles.
Essa filosofia também nos guia na parte curatorial e de produção. Ela nos ajuda a idealizar quais ritmos adotar e qual sonoridade defender, nos orientando a compreender o contexto brasileiro dentro da música eletrônica. Não diferente da paisagem formada por nós, brasileiros, a música eletrônica aqui se constrói sobre hibridismos. A precariedade que muitos artistas enfrentam, por exemplo, revela a tecnologia da gambiarra como um elemento estruturante para conceber ritmos nacionais, como o funk e o rap nacional, defendido por Micael Herschmann. Essa característica também é evidente em ritmos do Norte, como o brega, que se dá muitas vezes baseados em modificações de samples. Empregar essa diversidade deixa de ser um desafio quando não tentamos mais hierarquizar as coisas e assumimos a mistura, que também se faz por meio de gambiarras, como a identidade sonora da Pivetz. O público e o contexto de cada evento organizam os elementos dessa mistura, tornando a nossa relação curatorial e conceitual ainda mais dialógica.
Quem integra o Pivetz hoje são pessoas que representam diferentes pontos de vista sobre cultura e arte, vindas de espaços onde há uma discussão de resistência sobre a produção e seus desdobramentos políticos. A cena Ball Room, as batalhas de rap, o Slam, as diferentes periferias, a cena soundsystem, a cena do funk e os movimentos sociais são as nossas origens e bases. Existe um reconhecimento genuíno do talento e do ideal de cada pessoa, o que nos permite fabricar um "comum" onde é possível construir o que o Pivetz Sounds é hoje. Essas origens se misturam e alicerçam esse discurso do que somos, vinculados à realidade de que a conquista de direitos e da expressão artística se dá através de luta e resistência. Hoje, somos uma comunidade com muitos talentos e visões de existência que se unem por uma causa: fazer dessa música eletrônica, impregnada de significados e ideais políticos, um campo de encontro e de vislumbre de um mundo de coexistências possíveis.
Dos protagonismos possíveis
Neste ano, realizamos grandes sonhos que refletem nossas discussões iniciais sobre a ocupação política dos espaços urbanos. Fomos convidados a participar da Festa da Luz, que nos apresentamos no histórico Viaduto Santa Tereza, e tivemos a aprovação no Edital da Virada Cultural de BH, onde abrimos o palco para os coletivos de festa da cidade. Esses foram grandes passos, principalmente por termos conseguido materializar nossa filosofia de usar o espaço e o equipamento público para passar uma mensagem através da discotecagem. Na Festa da Luz, fizemos do evento uma ode às mulheres de diferentes gerações que representam a cultura reggae e dub na cidade. A atração, composta unicamente por mulheres, transformou o baixio do viaduto no último dia de festival. O gesto curatorial aqui foi um atravessamento no tempo, recontando a história de um som marginal, dessa vez por corpos femininos de diferentes idades e vivências. Sendo assim, o reggae das minas se tornou uma marca do Pivetz Sounds.
Já na Virada Cultural, o tema se tornou um pouco mais complexo. Em 2025, após as investidas contra movimentos culturais legitimamente negros e periféricos, postos em discussão através de projetos de lei como o PL 3675/2025, conhecida como Lei Anti Oruam, foi criada uma grande mobilização chamada Beagá Vai Virar Baile. A votação do PL foi derrubada, mas a mobilização continuou. As ideias sobre como responder a esse ataque se fixaram no imaginário de algumas pessoas, que esperavam da organização da Virada um posicionamento genuíno. Essas expectativas talvez não tenham sido supridas pela produção, mas todos nós que compartilhamos essa luta sentimos a responsabilidade de falar sobre o ocorrido e imprimir sonoramente nosso posicionamento, já que estávamos em um palco público.
Fizemos isso de uma forma Pivetz: o funk protagonizou nossa atração, contando com reforços da funkeira Teffy Angel, que apresentou suas músicas autorais junto do pivete Missiah. Além disso, nos esforçamos para enquadrar o funk sempre ao lado de um cenário maior da música eletrônica, entendendo-o como a principal contribuição brasileira para o gênero em escala global. Ou seja, não consideramos que o funk deva se fechar em um nicho, mas sim compreender que ele é uma riqueza capaz de se infiltrar e protagonizar outras construções de festas e promover outras opções de curadoria.
Desafios e o futuro
Os principais dificultadores da produção cultural hoje não estão distantes de conceitos já conhecidos e recorrentes, como as problemáticas que envolvem classe, gênero e raça. Elas estão enraizadas em nossa cultura e imaginário, evoluindo e se reproduzindo de diferentes formas. Contudo, são "inimigos" conhecidos, e por isso procuramos recalcular rotas e saber sempre onde estamos pisando e com quem estamos andando. A criação em rede é essencial para a existência do nosso coletivo e também se forma como uma rede de proteção e acolhimento, tanto pessoal quanto no âmbito dos negócios. No cenário das políticas públicas, entendemos a burocratização do acesso aos recursos como uma das principais barreiras para a existência de um acesso democrático à cultura. Por isso, é fundamental identificar, dar nome e espaço a movimentos criados em comunidade e suas lideranças, que são mantidos por décadas através do afeto e de produções auto-realizadas.
Talvez esse cenário ainda esteja muito longe, mas ser um "Pivete" nos permite sonhar e lutar por isso. Utilizamos da filosofia de Ailton Krenak, que nos diz que enquanto for possível contar mais uma história, o fim do mundo pode ser adiado. Assim é com a cultura: um novo horizonte pode ser vislumbrado sempre que pudermos aproveitar o espaço que temos para sonhar com ele. Por isso estamos aqui convidando a todos para sonhar com a gente. Alguns espaços e produtores ajudam esse sonho a ser possível ao investirem seu trabalho ou cederem seus espaços possibilitando que eventos autônomos aconteçam, como nossa parceria com o 2Black Beer, um estabelecimento que se destaca como um dos principais investidores da cultura underground hoje na cidade.
Sobre a burocratização dos processos, ela ainda é um grande obstáculo, mas pode ser uma poderosa arma quando apreendida. Essa ideia foi muito bem expressa pela artista Mac Julia no evento de homenagem aos funkeiros realizado no dia 5 de agosto de 2025, quando, junto de outros artistas, produtores e profissionais da cultura, o Pivetz recebeu o reconhecimento das vereadoras Iza Lourenço, Jhulia Santos e Cida Falabella. Mac Julia mencionou que, mesmo com a dificuldade de se enquadrar na burocracia, é a partir dela que se começa a garantir uma certa validação do trabalho. Acreditamos que é preciso aprender essa tecnologia do outro lado para não sermos passados para trás pelo próprio sistema.
Observamos que cada vez mais pessoas entendem que as batidas que a gente toca no PVTZ é o resultado de pesquisa, de vivência, de um amor imenso pela música, pela celebração e o uso constante da cultura como ferramenta de evolução social. É um trabalho sério. Como legado, queremos deixar um caminho trilhado e exemplo de produção responsável e política. Um trajeto que mostre que é possível, sim, criar, coexistir e resistir, transformando a música eletrônica em um campo de encontros e de novas possibilidades.



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