QUANDO A NAVE POUSA
- Revista Curió
- 23 de set. de 2025
- 4 min de leitura
O transe coletivo das aparelhagens paraenses com Gaby Amarantos
Por: Xavier Bartira
Última Atualização: 22/09/25

Mais que acontecimentos extraordinários, as festas de aparelhagem compõem um universo cultural que nasce do ordinário, do cotidiano citadino, e se condensa em momentos de celebração coletiva.
Se você é do Pará, mesmo sem nunca ter ido a uma festa de aparelhagem, já foi atravessado por suas estéticas: ao passar pelos camelôs do Comércio, pelo Ver-o-Peso ou ao caminhar pelas ruas do Guamá e do Jurunas, é impossível não ser tomado por sons e imagens que remetem a esse fenômeno. São espaços múltiplos, carregados de memórias, que evocam cheiros, nostalgias, férias em Mosqueiro ou Barcarena, a casa da avó, parentes que voltavam amanhecidos da aparelhagem do Tupinambá, Super Pop ou o lendário Rubi. Essas enormes estruturas, de som, luz e efeitos, mexem com nossos sistemas de significação, condensando práticas e afetos já presentes no dia a dia paraense.
É nesse cenário que Gaby Amarantos, após conquistar o Grammy de Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras com TecnoShow (2022), lança seu novo projeto: Rock Doido. Mais do que um álbum, trata-se de uma experiência audiovisual inspirada justamente nas aparelhagens, traduzindo em música e cinema o transe coletivo que esses espetáculos provocam.
Das origens ao tecnobrega
A partir da lambada, da percussão e dos instrumentos de sopro, em uma tentativa de reproduzir o estilo da Jovem Guarda na década de 1970, formou-se a identidade única do que hoje conhecemos como brega paraense.
Nos anos 1990, com a queda no mercado de discos e a ascensão de outros gêneros, como o axé, o brega perdeu espaço. Foi nesse contexto que, nas periferias de Belém, o brega tradicional se fundiu à música eletrônica, dando origem ao tecnobrega. Criado de forma independente, longe das grandes mídias, o gênero expandiu-se da periferia para o mundo. Misturando elementos do carimbó, do calypso, da música pop e da sonoridade eletrônica, o tecnobrega ganhou força especialmente nos anos 2000, quando passou a ocupar as aparelhagens e a se consolidar como fenômeno das comunidades populares.
Um dos pioneiros desse processo foi Antônio Luís do Carmo Conceição, o Tonny Brasil, multi-instrumentista considerado um dos criadores do tecnobrega. Com sua proposta tecnológica e inovadora, ele ajudou a impulsionar o gênero que, para além do entretenimento, tornou-se também uma importante fonte de renda para os bairros periféricos, garantindo lazer acessível a quem não podia frequentar festas privadas.
Mais que lazer, um fenômeno social
Essas festas representam mais do que diversão: constituem um fenômeno social. Das faixas de ráfia que anunciam os eventos às miniaturas de aparelhagens vendidas como lembranças, cada detalhe revela a relevância cultural do tecnobrega e sua identidade profundamente ligada ao povo paraense. Símbolos de resistência de uma cultura marginalizada, as aparelhagens não são apenas estruturas de som: são emoções, memórias e o trabalho coletivo daqueles que atuam nos bastidores.
Rock Doido: a vibração da Amazônia
Inspirado no êxtase sonoro das festas de aparelhagem, momento de transe coletivo conhecido como “rock doido”, tradição popular que movimenta multidões no Pará, o álbum de Gaby Amarantos foi concebido como um set contínuo, valorizando a espontaneidade das periferias e transformando a rua em palco, em baile de rua amazônico. O processo de produção começou em 2024 e ganhou forma definitiva em agosto de 2025, quando Gaby e o coletivo paraense Altar Sonoro, formado por Guilherme Takshy e Naré, gravaram o curta-metragem que acompanha o disco. O registro, feito em plano-sequência com um smartphone nas ruas do bairro da Condor, valoriza a espontaneidade e a energia das periferias, transformando a estética popular em linguagem cinematográfica.
Musicalmente, Rock Doido é um mergulho na diversidade sonora da região Norte. Entre carimbó, brega, tecnobrega e tecnomelody, o álbum reúne colaborações de nomes como Lauana Prado, Viviane Batidão e Gang do Eletro, ampliando o diálogo entre tradição e modernidade. É nesse cruzamento que Amarantos reafirma sua bandeira de mais de duas décadas: mostrar a Amazônia como potência criativa global.
Segundo Amarantos, o Rock Doido representa uma vibração única da Amazônia, um verdadeiro “orgasmo sonoro”:
“Nas festas de aparelhagem existe um momento de maior intensidade: o Rock Doido. É quando a pirotecnia explode, o fogo sobe, gente sobe na mesa de som e a euforia toma conta. Não precisa de droga nenhuma: é a própria música, o tecnobrega, o tecnomelody, que conduz à felicidade coletiva. O Rock Doido é o auge da festa, um transe coletivo, como se uma nave espacial pousasse para compartilhar energia.” (Amarantos, 2023).
O Rock Doido não apenas dialoga com as ancestralidades musicais do Pará, como também traz à cena expressões populares, como “Endoida caralh*” e “Sal, Sal”, que se tornaram marcas registradas de suas performances.
Essa mistura de sons distintos, irreverência e autenticidade explica a força do Rock Doido e sua capacidade de atrair grandes públicos, consolidando-o como um marco cultural amazônico.
Mais que acompanhar o álbum, Rock Doido (O Filme) assume a condição de obra independente: não replica o êxtase das aparelhagens, mas o reinventa, preservando a vibração do instante em lugar da polidez do espetáculo.
Essa trajetória tem um marco anterior em Encantada do Brega (2015), curta-metragem de Leonardo Augusto com participação de Samara Castro, Leona Vingativa e Gaby. Ao adaptar a Cinderela ao universo das aparelhagens, o filme viralizou e abriu espaço para a valorização audiovisual do tecnobrega. Agora, Rock Doido retoma esse espírito, mas em chave ampliada: une performance, música e cinema em um transe coletivo que transforma a rua em palco e a festa em experiência sensorial.
Quando a nave pousa
Se nas aparelhagens o “pouso da nave” simboliza o instante em que a festa atinge seu clímax, no Rock Doido (O Filme) esse gesto se expande em linguagem audiovisual. Gaby Amarantos faz da rua o espaço cósmico, do tecnobrega a energia propulsora, e da cultura amazônica a nave que leva consigo todos os corpos dispostos a dançar.



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